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São João d’Arga: a romaria onde o Minho sobe a serra com fé, música e memória

São João d’Arga: a romaria onde o Minho sobe a serra com fé, música e memóriaNa Serra d’Arga, onde o vento guarda histórias e o granito resiste ao tempo, há uma romaria que continua a ser vivida como os antigos a ensinaram: a pé, com concertinas, promessas e uma noite inteira passada junto do santo. Entre rusgas, merendas, trajos minhotos e a procissão que serpenteia o monte, São João d’Arga permanece como uma das imagens mais puras do Alto Minho — um lugar onde a fé ainda sobe a serra devagar, ao ritmo dos peregrinos.

São João d’Arga: a romaria onde o Minho sobe a serra com fé, música e memória

São João d’Arga: a romaria onde a fé ainda sobe a serra a pé

No coração da Serra d’Arga, no concelho de Caminha, há uma romaria que continua a fazer-se como antigamente: a pé, pelos caminhos da montanha, entre promessas, concertinas, cantares ao desafio e uma noite passada junto do santo. São João d’Arga, celebrada sobretudo entre 28 e 29 de agosto, é uma das mais singulares manifestações da religiosidade popular do Alto Minho.

O cenário é o antigo Mosteiro de São João d’Arga, classificado como Monumento Nacional desde 2013. Embora a tradição tenha atribuído a sua fundação a São Frutuoso, no século VII, a documentação patrimonial recomenda prudência quanto a essa cronologia. Está documentada, contudo, a existência medieval do estabelecimento religioso, estando a atual igreja associada ao românico tardio.

À sua volta permanecem os antigos quartéis dos romeiros, testemunho de uma característica essencial desta peregrinação: quem subia à serra ficava por lá. E ainda hoje muitos romeiros passam a noite de 28 para 29 nas imediações do santuário.

A romaria começa no caminho

Os romeiros chegam pelos caminhos da serra, muitas vezes em grupos, trazendo consigo música, comida e vinho.

A estrada mudou a forma de chegar, mas não acabou com a tradição. Ainda há romeiros que sobem a pé, recuperando os antigos caminhos que ligam as povoações da região ao mosteiro.

Depois, quando chega a noite, ouvem-se as concertinas.

As rusgas, os gaiteiros, os tocadores de concertina e os cantadores ao desafio são uma das marcas da romaria. A desgarrada nasce espontaneamente entre dois cantadores, enquanto à volta se dança e se prolonga a festa pela madrugada.

Broa, chouriço, cabrito e vinho verde fazem parte da merenda. E há ainda o tradicional “chiripiti”, bebida preparada com aguardente e mel.

Mas São João d’Arga nunca deixa de ser uma peregrinação.

Os romeiros dão tradicionalmente três voltas à capela, alguns em cumprimento de promessas, e sobrevive o curioso costume popular de deixar uma esmola ao santo e outra ao diabo.

Uma procissão singular

A procissão constitui outro dos momentos característicos: a cruz ladeada pelos lampiões, os pendões, os andores, seguindo depois o sacerdote sob o pálio, as bandas e o povo. As mordomas acompanhavam os andores usando os seus trajes mais ricos.

Na tradição que chegou aos nossos dias existe ainda uma particularidade visual: cruzes, lanternas e bandeiras religiosas são transportadas por mulheres trajadas à minhota, enquanto aos homens ficam reservadas as varas do pálio, sob o qual seguem os sacerdotes.

O traje minhoto não surge aqui como simples representação folclórica. Faz parte da própria manifestação religiosa.

São João, a 29 de agosto – A data da festa tem igualmente significado.

O orago é São João Baptista, mas não se celebra aqui a sua Natividade, assinalada liturgicamente em 24 de junho. A romaria culmina a 29 de agosto, memória do Martírio de São João Baptista.

João ocupa uma posição singular no calendário católico: além de Cristo e da Virgem Maria, é o santo de quem a Igreja celebra tanto o nascimento como a morte.

Santo Aginha, o santo da serra

A tradição local guarda ainda outra figura: Santo Aginha, considerado popularmente protetor dos viajantes.

A sua história pertence sobretudo à tradição, embora esteja registada em fontes escritas antigas, nomeadamente no século XIX. Segundo a narrativa popular, Aginha teria sido um salteador dos caminhos que, depois de se converter pela influência religiosa do mosteiro, passou a auxiliar os viajantes.

Um dia, ao tentar ajudar um homem em dificuldades com um carro, foi confundido com o antigo salteador e morto. Aquele que antes atacava quem atravessava a serra teria assim morrido precisamente a ajudar um viajante.

História, tradição e lenda encontram-se nesta personagem, cuja memória permanece ligada à Serra d’Arga. E talvez seja também isso que torna esta romaria diferente.

No final de agosto ainda há quem deixe o automóvel e escolha o caminho. Há quem durma na serra, quem cumpra uma promessa, quem leve a concertina, quem improvise uma desgarrada e quem vista o traje minhoto para acompanhar a procissão.

Entre o granito do antigo mosteiro, o som das gaitas e concertinas e os passos dos peregrinos permanece uma das imagens mais antigas do Minho: em São João d’Arga, a fé ainda sobe a serra a pé.

Sérgio Carvalho - professor e jornalista
Sérgio Carvalho – professor e jornalista
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