Novidades

Notícias Relacionadas

A “Chave de Ouro” de Bragança— o café das tertúlias que marcou gerações

A “Chave de Ouro” de Bragança – o café das tertúlias que marcou geraçõesNo coração da Praça da Sé, o emblemático “Chave de Ouro” no edifício do Clube de Bragança — vive uma transformação profunda. Semi‑demolido e envolto em tapumes, o edifício que marcou gerações de brigantinos prepara‑se para renascer como hotel de charme. Entre memórias, saudade e expectativa, Bragança acompanha o futuro de um dos seus símbolos mais queridos.

A praça da Sé em Bragança – centro cívico à volta do cruzeiro

O “Chave de Ouro” de Bragança — o café das tertúlias que marcou gerações e que hoje vive entre a saudade e a esperança

Há edifícios que não são apenas edifícios. São memórias, são cheiros, são vozes que ficaram a ecoar nas paredes. No reino encantado de Trás‑os‑Montes – expressão feliz de Daniel Jorge autor da fotografia que abre este texto -, no coração da Praça da Sé, Bragança teve — e ainda tem — um desses lugares: o Clube de Bragança, o mítico “Redondo”, com o Café Chave‑de‑Ouro no piso térreo, onde tantas histórias começaram sem ninguém dar por isso.

Este ano, ao atravessar a praça, o impacto foi duro. Ver o “Redondo” tapado, semi‑demolido, ferido na sua dignidade urbana, é como perder um pedaço da infância. Como escreveu Romain Rolland, “A vida não é triste. Tem horas tristes.” E esta é uma delas para quem cresceu a ver aquele círculo amarelo a marcar o centro cívico da cidade – como defendeu Daniel Jorge na sua publicação.

Um café que era sala de estar da cidade

O Chave‑de‑Ouro não era apenas um café. Era o lugar onde se compravam gelados, onde se jogava uma aposta, onde se conversava sobre política, futebol, colheitas, livros, amores e desamores. Era o ponto de encontro dos brigantinos, um espaço onde a cidade respirava.

No andar de cima, o Clube de Bragança guardava décadas de tertúlias, bailes, récitas, concertos, palestras e festas que ficaram na memória coletiva. Ali se fez a 1.ª Feira do Livro de Bragança, ali se celebraram Carnavais lendários, ali se discutiram ideias que moldaram a vida cultural da cidade.

Um edifício que nasceu com a República

O “Redondo” foi ocupado em 1911 pelo Centro Republicano Emídio Garcia, símbolo de uma época em que Bragança se abria ao debate político e à modernidade. Em 1935, tornou‑se oficialmente Clube de Bragança, mantendo o espírito de casa aberta à cultura, à convivência e à vida comunitária.

A sua arquitetura peculiar — redonda, vibrante, contrastante — sempre fez dele um marco visual da Praça da Sé. Um farol urbano.

Agora, o tempo da transformação

Hoje, o edifício está em obras. Foi comprado por um cidadão francês que promete transformá‑lo num hotel de charme, mantendo o seu aspeto exterior. A cidade observa, com esperança e receio, este processo. Porque Bragança sabe que o “Redondo” não é apenas pedra: é identidade.

Mesmo semi‑oculto por tapumes, continua a dividir a praça em duas ruas históricas — a Rua Direita e a Rua Abílio Beça — onde, em frente, brilha o Centro de Arte Contemporânea Graça Morais, projetado por Souto Moura. A arte contemporânea a dialogar com a memória republicana. Bragança no seu melhor.

Um lugar que merece voltar a ser o que sempre foi

O “Redondo” é parte da alma da cidade. E a alma, quando ferida, pede cuidado. Talvez este renascimento lhe devolva a vida, o brilho, o movimento. Talvez volte a ser o café das tertúlias, o clube das ideias, o ponto de encontro que atravessou gerações. Bragança merece isso. E o “Redondo” também.

Texto baseado em crónica de Daniel Jorge

Atigos Populares