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Os gigantes da fé que tocam o céu

Os gigantes da fé que tocam o céu – No Norte de Portugal, três romarias guardam uma das expressões mais extraordinárias da religiosidade popular: os gigantescos andores de Mouçós, Aparecida e Trofa. São estruturas efémeras que chegam a ultrapassar os 23 metros, movidas pela força de dezenas — às vezes centenas — de homens, e que transformam madeira, tecido e flores em autênticos monumentos de fé. Como escreveu Miguel Torga, avançam «como veleiros a navegar num mar de gente», numa imagem que diz mais do que qualquer número.

Os gigantes da fé que tocam o céu
Os gigantes da fé que tocam o céu

Os gigantes da fé: os grandes andores de Mouçós, Aparecida e Trofa

Há manifestações de religiosidade popular que impressionam não apenas pela devoção que congregam, mas também pela dimensão física que essa fé assume. No Norte de Portugal sobrevivem três exemplos extraordinários: o Andor de Nossa Senhora da Pena, em Mouçós, Vila Real; o Andor Grande de Nossa Senhora Aparecida, no Torno, Lousada; e os monumentais andores da procissão de Nossa Senhora das Dores, na Trofa.

São estruturas efémeras de madeira, tecido e ornamentação que chegam a atingir a altura de edifícios de vários pisos. Mais do que procurar decidir qual é «o maior», interessa perceber que representam uma forma singular de património religioso, artístico e comunitário. E são tão marcantes que entraram também na literatura, na poesia popular e na memória escrita das comunidades.

Senhora da Pena: mais de 23 metros aos ombros

Em Mouçós, no concelho de Vila Real, a Festa de Nossa Senhora da Pena realiza-se, segundo a documentação oficial, desde meados do século XVIII. O momento mais impressionante acontece no segundo domingo de setembro, quando sai o gigantesco andor da Senhora.

O Património Cultural, I.P. documenta atualmente uma estrutura que ultrapassa os 23 metros de altura, podendo aproximar-se das três toneladas no dia da procissão. Mais de uma centena de pessoas participa no seu transporte aos ombros ao longo de um percurso de aproximadamente 650 metros.

A preparação demora cerca de dois meses. São utilizados mais de mil metros de tecidos, dezenas de quilos de alfinetes e centenas de ornamentos. Quase toda a decoração é refeita anualmente.

No final da procissão acontece um dos momentos mais singulares: diante da Capela de Nossa Senhora da Pena, os carregadores elevam repetidamente a enorme estrutura, realizando aquilo a que a população chama a «dança do andor».

A tradição recebeu em 2026 um reconhecimento particularmente importante: o Andor da Senhora da Pena foi inscrito no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, por despacho de 25 de maio, publicado em Diário da República a 2 de junho.

Miguel Torga diante do andor

A imponência desta manifestação popular impressionou também um dos maiores escritores portugueses do século XX: Miguel Torga.

A 13 de setembro de 1981, Torga esteve na romaria de Nossa Senhora da Pena e registou a experiência no seu Diário XIII. A documentação do processo de inventariação do Património Cultural confirma esta referência.

Perante os enormes andores avançando sobre a multidão, Torga recorreu a uma belíssima imagem literária, comparando-os a «veleiros a navegar num mar de gente».

Poucas expressões poderiam traduzir melhor aquilo que acontece em Mouçós: uma estrutura altíssima, aparentemente impossível de mover, avançando lentamente sobre os ombros de dezenas de homens no meio da multidão.

A documentação histórica mostra, aliás, que esta monumentalidade já chamava a atenção anteriormente. Em 1953, a imprensa descrevia os andores de Mouçós como «altos como torres».

Assim, o Andor da Senhora da Pena não pertence apenas à história da religiosidade popular transmontana: entrou também na literatura portuguesa através do olhar de Miguel Torga.

Aparecida: 22,52 metros em direção ao céu

Outro gigante encontra-se no Torno, concelho de Lousada. A Romaria de Nossa Senhora Aparecida remonta a 1823 e realiza-se em agosto. A procissão de 14 de agosto tem como grande símbolo o chamado Andor Grande.

A Rota do Românico documenta-o com números muito concretos: 22,52 metros de altura, cerca de 1.300 quilos e aproximadamente 80 carregadores. A organização da própria romaria refere atualmente cerca de 1,5 toneladas e aproximadamente uma centena de homens envolvidos no transporte.

A dimensão desta tradição está documentada há décadas. Os arquivos da RTP conservam imagens de 1965, nas quais já se observa um andor de enormes proporções transportado pelas ruas com auxílio de cordas.

Um documentário da RTP realizado em 2005 voltou a registar a construção e ornamentação dos andores e o esforço coletivo necessário para os levantar e transportar.

A documentação municipal também confirma a centralidade desta tradição. Num programa oficial da romaria de 2018, a Câmara Municipal de Lousada anunciava a «Majestosa Procissão» com o «tradicional Andor Grande transportado por mais de 80 homens».

A imagem colocada no alto deste extraordinário monumento efémero é, curiosamente, pequena. É precisamente esse contraste entre a pequenez da imagem e a monumentalidade da estrutura que tornou a procissão da Aparecida uma das imagens mais características das romarias do Vale do Sousa.

O Andor Grande visto pela literatura e pela fotografia

Também a Aparecida entrou na escrita e no olhar dos artistas. Entre os testemunhos contemporâneos encontra-se o trabalho do poeta, fotógrafo e artista Antero de Alda, que incluiu a romaria da Senhora Aparecida no seu projeto Histórias do Sagrado e do Profano.

A propósito da romaria de agosto de 2009, Antero de Alda registou fotograficamente e por escrito aquele extraordinário momento coletivo, referindo o gigantesco andor transportado por cerca de setenta homens.

A fotografia transforma-se aqui quase em poesia visual: a pequena imagem de Nossa Senhora surge elevada muito acima da multidão, enquanto dezenas de homens sustentam uma estrutura que parece desafiar as próprias leis do equilíbrio.

Existem igualmente descrições antigas da romaria que testemunham o fascínio provocado pelo chamado «Andor Grande», aguardado pelos romeiros como um dos grandes momentos da festa.

Não encontrei, contudo, até ao momento, fonte suficientemente sólida que permita atribuir a um poeta português conhecido um poema especificamente dedicado ao Andor Grande da Aparecida. É preferível reconhecer essa ausência documental a atribuir versos sem confirmação.

Trofa: uma procissão inteira de gigantes

Na Trofa, a particularidade é diferente. Aqui não existe apenas um grande andor. A procissão de Nossa Senhora das Dores distingue-se por apresentar tradicionalmente dez grandes andores, representativos das diferentes aldeias de São Martinho de Bougado.

A organização oficial das festas refere que cada estrutura pode atingir cerca de 16 metros de altura, enquanto o andor de Nossa Senhora das Dores ronda os 650 quilos. A festa tem mais de 250 anos de história e realiza-se no terceiro domingo de agosto.

As dimensões variam naturalmente de ano para ano, porque estamos perante estruturas montadas e ornamentadas para cada edição. Em 2022 foram apresentados dez andores com cerca de 15 metros, aproximadamente 500 quilos cada, envolvendo cerca de 3.000 ornamentos e 220 pessoas no seu transporte.

A RTP registou igualmente esta característica da romaria trofense, referindo em 2014 andores com mais de 13 metros de altura numa festa que então se aproximava dos 250 anos.

Ao contrário de Mouçós e da Aparecida, os gigantes da Trofa deixaram, em regra, de ser integralmente transportados aos ombros. Fontes publicadas descrevem a utilização de estruturas com rodas, permanecendo numerosos homens nas cordas para controlar os enormes andores durante a deslocação.

Há, contudo, memória documentada da antiga forma de transporte. Em 2012, por exemplo, um armador recordava que eram necessários 16 homens para carregar o andor e que, no passado, havia muitos voluntários, incluindo militares que cumpriam promessas depois de regressarem da Guerra do Ultramar.

Nossa Senhora das Dores na Trofa
Nossa Senhora das Dores na Trofa

A Senhora das Dores cantada pelo povo

A relação da Trofa com a palavra poética é particularmente antiga e encontra-se na própria poesia popular. Quando a antiga capela da Senhora das Dores já se encontrava degradada e era pequena para acolher os numerosos romeiros, o povo cantava uma quadra que ficou ligada à história do santuário:

«Senhora das Dores da Maia,
A vossa capela cai.
Mandai-a já levantar
Pelo povo que aí vai!»

A tradição da quadra é publicada pela própria Paróquia da Trofa e está relacionada com o período anterior à reconstrução da capela, iniciada em 1879.

É um pequeno documento de enorme valor. Em quatro versos encontramos a devoção, a memória do antigo território da Maia e o desejo popular de oferecer à Senhora um templo digno da multidão que ali acorria.

A romaria aparece também na literatura e na corografia oitocentista.

José Augusto Vieira, autor de O Minho Pitoresco, descreveu os ranchos de romeiros que se dirigiam à Senhora das Dores, entre cânticos, danças e manifestações da religiosidade popular.

Também Augusto Soares de Azevedo Barbosa de Pinho Leal, no monumental Portugal Antigo e Moderno, deixou referência à procissão, mencionando então seis andores, quase todos de grande altura, transportados por cerca de vinte homens cada.

Estas descrições são especialmente importantes porque demonstram que os grandes andores da Trofa não são uma invenção recente. A sua dimensão já surpreendia os observadores no século XIX.

Uma tradição que circulou entre regiões

Talvez um dos dados históricos mais interessantes surja na documentação oficial preparada para a classificação do Andor da Senhora da Pena.

O estudo identifica vários armadores provenientes de Lousada que trabalharam nos andores de Mouçós, entre eles António Fernandes Massas, Carlos Massas e Joaquim Fernandes. A lista inclui igualmente profissionais oriundos de Vila Real, Celorico de Basto, Amarante e Quintã de Jales.

Isto demonstra que a arte dos grandes andores não se desenvolveu necessariamente de forma isolada. Armadores e famílias especializadas circularam entre diferentes romarias, levando técnicas de construção, ornamentação e soluções destinadas a fazer crescer estas estruturas.

O próprio Joaquim Fernandes, armador da Aparecida durante décadas, declarou exercer este trabalho em vários pontos do Norte do país.

Temos, portanto, indícios documentais de uma verdadeira cultura dos grandes andores do Norte de Portugal, transmitida entre gerações, famílias e territórios.

Quando a fé se transforma em arquitetura

Mouçós impressiona pelo peso e pelo transporte aos ombros de uma estrutura com mais de 23 metros.

A Aparecida impressiona pela verticalidade dos seus 22,52 metros, igualmente transportados pela força de dezenas de homens.

A Trofa distingue-se pela multiplicação dessa monumentalidade: não é somente um gigante que percorre as ruas, mas uma procissão tradicionalmente composta por dez enormes andores, alguns aproximando-se dos 15 ou 16 metros.

Por isso, é prudente evitar afirmações absolutas sobre qual é «o maior andor de Portugal» ou «do mundo». As próprias fontes publicadas apresentam números diferentes consoante os anos, e estamos perante construções efémeras cuja altura, peso e ornamentação podem mudar.

Mas talvez Miguel Torga tenha encontrado a melhor medida para estes gigantes. Não os mediu em metros nem em toneladas. Viu-os como «veleiros a navegar num mar de gente».

A imagem une aquilo que os números não conseguem explicar. Porque estes andores são arquitetura efémera, engenharia artesanal e arte popular, mas são sobretudo uma expressão de fé coletiva. Em Mouçós, Lousada e Trofa, gerações sucessivas transformaram madeira, tecidos, flores, alfinetes, cordas e força humana em autênticas torres de devoção.

E talvez seja essa a sua característica mais bela: quanto mais alto se eleva o andor, mais evidente se torna que só pode avançar porque muitos o sustentam cá em baixo.

Por Sérgio Carvalho - professor e jornalista
Por Sérgio Carvalho – professor e jornalista
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