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Santa Maria nas Pedras de Portugal: A Geografia Oculta das Nossas Catedrais

Santa Maria das Pedras de Portugal nas nossas Catedrais De Braga a Silves, do Porto a Coimbra, as pedras das antigas catedrais portuguesas repetem um nome que atravessa séculos: Santa Maria. Muito antes de Fátima, Portugal já era Terra de Santa Maria, e a dedicação mariana das suas Sés revela uma geografia espiritual que moldou o país, a fé e a própria identidade nacional.

Portugal, terra de Santa Maria: porque tantas catedrais são dedicadas a Nossa Senhora?

Quando entramos numa antiga Sé portuguesa, entramos não apenas num monumento de pedra, mas numa página da história religiosa do país. E há um nome que se repete, de Norte a Sul, sobre os altares das nossas catedrais: Maria.

Sé de Viseu dedicada a Santa Maria da Assunção tendo também São Teotónio como padroeiroSanta Maria das Pedras de Portugal nas nossas Catedrais

Santa Maria, Santa Maria Maior, Nossa Senhora da Assunção, Nossa Senhora da Glória, Nossa Senhora da Conceição, Nossa Senhora da Graça, Nossa Senhora Rainha… Os títulos variam, mas a presença é a mesma. A maioria das atuais catedrais portuguesas tem uma dedicação mariana.

Das 20 dioceses territoriais existentes atualmente em Portugal, cerca de três quartos possuem uma catedral dedicada a Nossa Senhora, sob diferentes invocações. Mas, se alargarmos o olhar às antigas dioceses, concatedrais e antigas Sés, a presença mariana torna-se ainda mais evidente.

Sé de LisboaSanta Maria das Pedras de Portugal nas nossas Catedrais

Não se trata de uma coincidência. É o testemunho de uma relação antiquíssima entre a formação religiosa de Portugal e o culto de Santa Maria.

A igreja-mãe colocada sob a proteção de Maria

A palavra «catedral» não significa propriamente uma igreja grande ou monumental. Vem de cathedra, a cadeira do bispo. A catedral é, portanto, a igreja onde se encontra a cátedra episcopal e, simbolicamente, a igreja-mãe de todas as igrejas da diocese.

Durante a Idade Média, particularmente no contexto da reorganização das dioceses e da Reconquista cristã, muitas destas igrejas episcopais foram dedicadas a Santa Maria.

É o que encontramos em algumas das mais antigas Sés portuguesas.

A Catedral de Braga é Santa Maria de Braga. Em Lisboa encontramos Santa Maria Maior. Viana do Castelo conserva igualmente o título de Santa Maria Maior. Setúbal tem Santa Maria da Graça. Aveiro, Nossa Senhora da Glória. Bragança, Nossa Senhora Rainha.

E uma invocação destaca-se particularmente: Nossa Senhora da Assunção.

É sob este título que encontramos uma tradição ligada às catedrais do Porto, Évora, Faro, Funchal, Portalegre e Viseu.

As antigas dioceses reforçam a presença de Maria

O mapa eclesiástico português não permaneceu imutável ao longo dos séculos. Dioceses foram criadas, extintas ou unidas; algumas sedes episcopais mudaram de cidade ou de igreja. Por isso, para compreender verdadeiramente a presença de Nossa Senhora nas catedrais portuguesas, não basta olhar para as 20 catedrais atuais.

Portugal conserva concatedrais e antigas catedrais que foram, em outros momentos da história, igrejas-mães de dioceses.

E também aqui encontramos Maria.

A Sé de Elvas – Santa Maria das Pedras de Portugal nas nossas Catedrais

A Sé de Elvas, por exemplo, foi catedral da Diocese de Elvas, criada em 1570 e extinta no século XIX. A antiga Sé é dedicada a Nossa Senhora da Assunção.

Em Silves, antiga sede episcopal do Algarve, encontramos a velha Sé dedicada a Santa Maria, tradicionalmente identificada com Nossa Senhora da Conceição. Quando a sede da diocese foi definitivamente estabelecida em Faro, a antiga catedral de Silves perdeu a função episcopal, mas permaneceu como testemunho monumental dessa história.

Sé Catedral de Miranda do Douro

Também Miranda do Douro, sede da diocese criada no século XVI e posteriormente unida a Bragança, conserva a sua monumental Sé, hoje Concatedral de Santa Maria.

Ou seja: quando acrescentamos às catedrais atuais as igrejas que foram Sés de antigas dioceses portuguesas, a geografia mariana torna-se ainda mais impressionante.

Claustros da Sé Velha de Coimbra

O extraordinário caso da Sé Velha de Coimbra

Talvez o exemplo mais revelador seja Coimbra.

Quem olhar apenas para a situação atual poderá concluir que Coimbra constitui uma das exceções à tradição mariana. A atual Sé Nova de Coimbra é dedicada ao Santíssimo Nome de Jesus.

Mas esta realidade resulta de uma mudança histórica.

Durante séculos, a catedral da diocese foi a atual Sé Velha de Coimbra, formalmente a Catedral de Santa Maria de Coimbra, associada também à invocação de Nossa Senhora da Assunção.

A construção do edifício românico iniciou-se no século XII, por iniciativa do bispo D. Miguel Salomão. Foi consagrada em 1184 e, no ano seguinte, ali foi coroado D. Sancho I, segundo rei de Portugal.

É uma das grandes testemunhas da formação do Reino e permanece como a única catedral românica portuguesa da época da Reconquista que chegou aos nossos dias relativamente intacta.

A própria designação histórica é significativa: Sé de Santa Maria de Coimbra.

Só em 1772, depois da expulsão dos Jesuítas, a sede episcopal foi transferida da antiga Catedral de Santa Maria para a igreja do Colégio de Jesus, que passou a ser conhecida como Sé Nova. (Visit Portugal⁠)

Assim, Coimbra não enfraquece a tese da grande tradição mariana das catedrais portuguesas. Pelo contrário: historicamente, confirma-a.

No interior da Sé Catedral do Porto

O Porto e Nossa Senhora da Assunção

Esta ligação ganha especial significado no Porto.

A Sé portuense está historicamente ligada a Nossa Senhora da Assunção, e a Virgem da Assunção é padroeira principal da Diocese do Porto.

Assim, o 15 de agosto não é para a Igreja do Porto apenas uma solenidade universal. Possui também uma dimensão profundamente diocesana.

A Assunção proclama a fé cristã de que Maria, terminado o curso da sua vida terrena, foi elevada em corpo e alma à glória celeste. Aquela que recebeu Cristo no seu ventre participa plenamente da vitória do Filho sobre a morte.

Não admira, por isso, que tantas igrejas-mães tenham sido colocadas sob esta invocação.

Nem todas as catedrais são marianas

Apesar desta impressionante presença de Nossa Senhora, não podemos dizer que todas as atuais catedrais portuguesas sejam dedicadas a Maria.

Há exceções significativas: Angra, dedicada ao Santíssimo Salvador; Beja, a Santiago Maior; Coimbra, atualmente ao Santíssimo Nome de Jesus; Leiria, ao Santíssimo Salvador; e Vila Real, a São Domingos.

Mas o exemplo de Coimbra demonstra que a fotografia atual não conta toda a história.

Há que juntar as Sés Velhas, as concatedrais e as catedrais das antigas dioceses. Elvas, Silves, Miranda e a Sé Velha de Coimbra ajudam a reconstruir um mapa religioso português ainda mais profundamente marcado pelo nome de Santa Maria. (Wikipédia⁠)

Um país chamado «Terra de Santa Maria»

A presença de Maria nas catedrais deve ainda ser entendida num contexto mais vasto.

Muito antes de Fátima, Portugal possuía uma fortíssima geografia mariana. Igrejas, ermidas, capelas, mosteiros, confrarias, romarias, nomes de lugares e festas populares testemunham essa devoção.

A própria expressão medieval Terra de Santa Maria, associada a uma vasta região entre o Douro e o Vouga, mostra como o nome de Maria ficou inscrito não apenas na religião, mas também na geografia e na identidade histórica portuguesa.

Igreja da Senhora da Conceição em Vila Viçosa

Mais tarde, esta relação ganharia uma dimensão nacional particularmente expressiva quando D. João IV proclamou Nossa Senhora da Conceição Padroeira de Portugal, em 1646.

A devoção mariana passou, assim, das pequenas ermidas às grandes catedrais, da religiosidade popular à própria representação simbólica do Reino.

O Traje Domingueiro na Senhora da Agonia em Viana do Castelo

Das catedrais às romarias de agosto

E existe ainda uma ligação fascinante entre as grandes Sés e a religiosidade popular.

A mesma Maria venerada solenemente nas catedrais como Santa Maria ou Nossa Senhora da Assunção aparece nas aldeias e freguesias com títulos profundamente ligados à vida das populações: Senhora da Saúde, Senhora dos Remédios, Senhora das Dores, Senhora da Lapa, Senhora da Abadia, Senhora da Oliveira, Senhora do Alívio e tantas outras.

Por isso, 15 de agosto tornou-se um dos grandes dias marianos do calendário popular português.

Enquanto a liturgia celebra a Assunção da Virgem Santa Maria, inúmeras comunidades celebram Nossa Senhora sob invocações locais. Os sinos das catedrais e os sinos das pequenas capelas anunciam, afinal, a mesma festa de Maria.

É neste ambiente que podemos compreender antigas expressões populares como aquela que ainda sobrevive na memória de muitas famílias do Norte: «o dia das Sete Senhoras».

A expressão merece investigação própria, porque as «sete Senhoras» podem variar segundo tradições e regiões e não devemos transformar tradição oral em certeza histórica sem documentação. Mas o contexto ajuda a compreendê-la: durante séculos, 15 de agosto foi um verdadeiro mapa de festas marianas simultâneas.

Maria inscrita nas pedras de Portugal

As catedrais portuguesas contam, assim, uma história muito mais antiga do que a divisão diocesana que hoje conhecemos.

Não são todas dedicadas a Nossa Senhora. Mas, quando juntamos as atuais catedrais, as Sés Velhas, as concatedrais e as catedrais das antigas dioceses, a presença de Santa Maria torna-se ainda mais impressionante.

Braga, Porto, Lisboa, Évora, Coimbra, Elvas, Silves, Miranda… diferentes épocas da história portuguesa parecem repetir o mesmo nome: Santa Maria.

As pedras dizem aquilo que durante séculos o povo cantou, rezou e transmitiu de geração em geração: Maria ocupa um lugar singular na história espiritual de Portugal.

Talvez por isso o dia 15 de agosto continue a possuir um sabor diferente: É a Assunção. É a festa de inúmeras «Senhoras». É um daqueles dias em que a geografia religiosa de Portugal parece transformar-se num imenso santuário dedicado a Santa Maria.

Por Sérgio Carvalho – professor e jornalista

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