As Sete Senhoras: paisagem transformada em devoção – Nas terras de Basto e do Minho, a Lenda das Sete Senhoras continua a iluminar montes, caminhos e memórias: sete invocações de Nossa Senhora erguidas em lugares altos, como sete irmãs que se avistam através das serras e guardam quem vive nos vales. No dia 15 de agosto, esta tradição ganha ainda mais força — é o momento em que a fé popular recorda que, entre montes e romarias, Maria é uma só, mas a esperança tem muitos nomes.

As Sete Senhoras — uma antiga lenda mariana das terras de Basto
Há tradições que não nasceram nos livros. Nasceram nos caminhos, nas romarias, nas conversas à porta das igrejas e nas histórias que os avós contavam aos mais novos. A Lenda das Sete Senhoras, profundamente ligada às terras de Basto e ao Minho, é uma dessas memórias onde a fé popular, a paisagem e a devoção a Nossa Senhora se encontram.
Conta a tradição que sete «Senhoras» habitavam os montes da região, cada uma no seu santuário, erguido num lugar elevado. Eram como sete irmãs que, apesar da distância, permaneciam unidas e se avistavam umas às outras através das serras e dos vales.
As sete invocações tradicionalmente associadas a esta lenda são:
- Nossa Senhora da Graça, em Vilarinho, Mondim de Basto;
- Nossa Senhora dos Remédios, em Arco de Baúlhe;
- Nossa Senhora do Viso, em Caçarilhe, Celorico de Basto;
- Nossa Senhora das Neves, em Aboim, Fafe;
- Nossa Senhora das Graças, em Carvalhosa;
- Nossa Senhora da Orada, em Alvite;
- Nossa Senhora do Porto, em Porto d’Ave, Póvoa de Lanhoso.
A geografia ajuda a compreender o nascimento da lenda. Muitos destes santuários encontram-se em lugares altos, dominando extensas paisagens. Para quem vivia num mundo sem estradas modernas, iluminação pública ou comunicações instantâneas, olhar para outro monte e saber que ali existia também uma ermida dedicada à Virgem criava uma poderosa imagem de proximidade.
As Senhoras «viam-se».
E, se se viam, também poderiam falar umas com as outras.
A imaginação popular fez o resto.
Assim nasceu a representação das sete irmãs espalhadas pelos montes, guardando as povoações, protegendo os campos e acompanhando aqueles que atravessavam os caminhos da região.
Naturalmente, do ponto de vista cristão, não estamos perante sete «Nossas Senhoras». Maria é uma só. São diferentes invocações da mesma Virgem Maria, nascidas das devoções, acontecimentos e tradições de cada comunidade.
O 15 de agosto e as Sete Senhoras
Há ainda um elemento particularmente belo nesta tradição: a sua associação ao 15 de agosto, Solenidade da Assunção de Nossa Senhora.
Em Portugal, esta data tornou-se desde muito cedo um dos grandes dias das romarias marianas. Por todo o país, inúmeras comunidades celebram Nossa Senhora sob diferentes títulos precisamente no dia da Assunção.
Daí que a memória popular tenha conservado em algumas regiões uma expressão curiosa:
«15 de agosto é o Dia das Sete Senhoras.»
Nas terras de Basto, esta expressão encontra um eco especial na própria Lenda das Sete Senhoras.
A tradição continua viva. Em 15 de agosto de 2022, por exemplo, as imagens das sete invocações foram reunidas em Arco de Baúlhe para um Encontro das Sete Senhoras, dando expressão contemporânea a uma memória transmitida durante gerações.
Sete montes, sete santuários, uma só Senhora
O número sete também não é indiferente à cultura cristã. Na Bíblia, é frequentemente sinal de plenitude e totalidade: os sete dias da criação, os sete dons do Espírito Santo, as sete igrejas do Apocalipse…
Talvez por isso a imagem das Sete Senhoras tenha adquirido tanta força no imaginário religioso.
Por detrás da lenda encontramos algo profundamente característico da religiosidade popular portuguesa: a cristianização da própria paisagem.
O monte deixa de ser apenas um monte. Torna-se lugar de peregrinação.
O caminho transforma-se em romaria.
E o horizonte passa a ter uma Senhora que vela por aqueles que vivem no vale.
Ainda hoje, quando observamos do alto de alguns destes santuários as serras sucessivas de Basto e do Minho, compreendemos melhor como poderia ter nascido a lenda.
Em cada monte, uma ermida.
Em cada ermida, Nossa Senhora.
E, entre montes e vales, uma antiga certeza popular: as Sete Senhoras nunca estavam verdadeiramente separadas.




