Senhor da Serra: quando um povo sobe para encontrar esperança – Em Semide, a romaria ao Senhor da Serra volta a desenhar o mesmo gesto antigo: subir o monte, passo a passo, levando promessas, memórias e inquietações. No alto, diante do Crucificado que atravessou séculos, cada peregrino reencontra a força silenciosa da fé — aquela que não se explica, mas que acompanha quem sobe e quem desce, sempre com esperança renovada.

Senhor da Serra — Séculos de fé no alto de Semide
Há lugares onde a fé parece querer subir mais alto.
É assim em Semide, no concelho de Miranda do Corvo, Diocese de Coimbra, onde, por estes dias de agosto, a tradição volta a conduzir os peregrinos ao Santuário do Senhor da Serra.
As festividades decorrem tradicionalmente entre 14 e 25 de agosto, mantendo viva uma devoção com vários séculos de história.
O santuário ergue-se no alto de um monte, separado do casario de Semide pela própria elevação do terreno. Do seu adro abre-se uma larga panorâmica sobre Coimbra, o litoral e, ao longe, a região montanhosa.

Mas quem sobe ao Senhor da Serra não procura apenas a paisagem. Sobe para encontrar o Crucificado.
A devoção é dedicada ao Senhor Santo Cristo da Serra e a sua história está intimamente ligada ao antigo Mosteiro Beneditino de Santa Maria de Semide, fundado no século XII.
Segundo a tradição, a imagem de pedra do Divino Senhor da Serra pertenceu a Martinho Avô e à sua mulher, Maria Guilherme, naturais da vizinha freguesia de Ceira. Teriam sido eles a colocar a imagem num lugar conhecido como Cruz da Serra.
Mais tarde, as monjas beneditinas do Mosteiro de Semide terão transferido a imagem para uma pequena ermida no alto da serra.
E foi à volta dessa imagem de Cristo Crucificado que nasceu e cresceu uma devoção popular que atravessou gerações.
A primitiva ermida terá sido construída por volta de 1653. Ao longo dos séculos, a Serra tornou-se lugar de romaria. Por estes caminhos passaram homens e mulheres trazendo promessas, agradecimentos, preocupações e esperanças.
No final do século XIX, a velha ermida deu lugar a um novo templo. Foi demolida em 1888 e a atual igreja ficou concluída em 1904, segundo projeto de António Augusto Gonçalves, professor e fundador da Escola Livre das Artes do Desenho, em Coimbra.
A igreja, de planta em cruz latina, reúne elementos de diferentes linguagens artísticas. Mas, no seu interior, é naturalmente o Santo Cristo que concentra o olhar e a oração dos peregrinos.
E talvez possamos compreender a força desta devoção precisamente olhando para a Cruz.
Durante séculos, gerações diferentes subiram a mesma serra. Mudaram os tempos, mudaram as aldeias, mudaram os caminhos e mudaram as formas de viver.
Mas não mudaram completamente as perguntas do coração humano.
Continuamos a levar connosco alegrias e sofrimentos, doenças e esperanças, preocupações com os filhos e com a família, agradecimentos e promessas.
Subimos com a nossa vida. E encontramos no alto um Cristo de braços abertos.
Neste 16 de agosto, em pleno tempo das festividades do Senhor da Serra, a tradição volta, por isso, a ser muito mais do que uma recordação do passado. É memória viva.
Porque cada peregrino que sobe acrescenta os seus passos aos passos de todos aqueles que, durante séculos, fizeram este mesmo caminho.
Talvez seja essa a mais bela imagem do Senhor da Serra: um povo que sobe ao monte para olhar a Cruz e regressa ao seu caminho levando consigo esperança.




