Num tempo em que a política tende a resguardar-se de referências religiosas, há quem assuma a fé sem reservas no espaço público. José de Carvalho é Deputado à Assembleia da República e atualmente Secretário da Mesa da Assembleia da República, o entrevistado alia a responsabilidade institucional a uma dimensão intelectual marcada por várias obras publicadas sobre o catolicismo.
Ao longo destas dez palavras e dez perguntas, percebe-se que, para o entrevistado, a relação entre fé e política não se vive na imposição, mas no testemunho; não na ocupação do espaço público pela religião, mas na proposta de valores que considera universais e fundadores da identidade portuguesa.
Num Parlamento plural, laico e democrático, as suas respostas deixam também uma provocação: poderá a política reencontrar-se com as suas raízes espirituais sem perder a liberdade e o respeito pela diferença? A resposta ficará, certamente, nas mãos da
História — e da consciência de cada homem público.

Decálogo — Dez Palavras, Dez Perguntas
Bússola – Sendo Secretário da Mesa da Assembleia da República, a sua fé católica é um guia real nas decisões… ou fica à porta do Parlamento?
José de Carvalho (JC) – A Fé é uma bússola. Uma bússola que deve guiar sempre o nosso caminho e a nossa vida. Procuro que a Fé me oriente em todos os momentos da vida e não apenas agora, que desempenho as honrosas funções de Secretário da Mesa da Assembleia da
República.
Coragem- Assume-se católico num tempo em que muitos políticos evitam essa exposição: é convicção profunda ou também uma afirmação identitária?
JC – Ser católico faz parte da minha identidade. Todos o sabem. Sou católico por tradição e por convicção. Aliás, mesmo antes de desempenhar funções como político ativo e interveniente, como o faço agora, após a eleição em março de 2024, já assumia essa condição de católico. No partido em que estou, no CHEGA, sempre encontrei, e desde o primeiro instante, um espaço de liberdade. Até hoje, e estou cá desde 2020, nunca ninguém do Partido me condicionou em rigorosamente nada. Liberdade e confiança totais… E sem qualquer receio de assumir essa convicção.
A este propósito, há poucos dias, aquando do debate no dia 19 de março, Dia da Solenidade de São José e Dia do Pai, na intervenção que fiz, no Plenário da Assembleia, levei uma estampa com a imagem de São José. A nossa bancada aplaudiu efusivamente e os outros deputados, das restantes bancadas, que eu me tenha apercebido, respeitaram o gesto. Recordo que alguns deputados, das outras bancadas, no final do debate, nos corredores, me cumprimentaram. Um deles, ainda me disse: «Senhor deputado, Parabéns pela coragem de trazer o São José a esta casa. Há anos que aqui estou e foi a primeira vez que assisti a uma coisa destas e sem incendiar o plenário. Olhe que as pessoas respeitam-no e, mesmo não concordand consigo, gostam de si…». A minha resposta foi simples: «Há um grande respeito para com o nosso São José e não para com este simples José, que agora está a deputado.» Pronta resposta do colega que me interpelou: «Há respeito para com ambos, Zé de Carvalho, acredite.»

Testemunho – Num Estado que está separado das religiões e das Igrejas, até onde pode ir um político católico sem ser acusado de querer impor valores religiosos?
JC – Naturalmente, respeito a liberdade da Igreja e esta mantém relações amistosas com as outras denominações religiosas existente no país. Num ou noutro aspeto, poderemos sempre melhorar e aperfeiçoar. Mas importa perceber o contexto histórico em que estamos.
Quando me assumo como católico e político, e sem querer fugir à sua pergunta (risos…) não estou a impor nada a ninguém. Estou apenas a propor. A propor uma mundividência. É um testemunho. É uma sugestão. Não uma imposição.
Missão – Tem várias obras publicadas sobre o catolicismo: escreve por missão, por convicção… ou por necessidade de intervir no debate cultural?
JC – Escrevo por inúmeras razões. Escrevo por paixão. Escrevo por convicção. Escrevo, também, por missão de vida e pela necessidade de intervenção cultural e religiosa. Nos últimos tempos, infelizmente, não escrevo tanto como devia, mas como me é permitido. Afinal, os
afazeres são sempre muitos e o tempo tão pouco…
Convicção – Há contradições entre o que defende nos seus livros sobre a Igreja e aquilo que a política o obriga a votar?
JC – Como diz o nosso bom Povo Português: nunca se deve ser juiz em causa própria. [risos] Naturalmente, devemos deixar essa avaliação para os outros. Porém, quero acreditar que não há qualquer contradição entre aquilo que está nos livros, aquilo que a Igreja Católica defende e o que a Política nos pede para votar, aprovar e aplicar.
- Raízes – A política portuguesa tem medo das suas raízes cristãs ou simplesmente já não acredita nelas?
JC – Aqui, se me permite, temos de distinguir os políticos da Política. A Política Portuguesa parece-me que não tem medo das raízes cristãs e da sua identidade, que até rima com Cristandade, da Nação Portuguesa. Aliás, Português, logo cristão. Uma parte dos servidores da
res publica é que nem sempre assumem essas raízes cristãs. Mas é fundamental que se reconheça esta particularidade da identidade Portuguesa com a Cristandade. - Humanismo – A doutrina social da Igreja é, na prática, ignorada pelos decisores políticos?
JC – Os valores Evangélicos do acolhimento, do acompanhamento, do cuidar e ajudar, pelo que me é dado perceber, fazem parte do ADN de alguns dos servidores da res publica. Os princípios da subsidiariedade, da liberdade de educação, da liberdade de escolha das famílias, assim como a Justiça Social e a Paz, entre outros, são prática a alguns dos que desempenham funções públicas. - Primado – Quando a consciência cristã entra em conflito com a disciplina partidária, quem vence?
JC – Vence a consciência cristã. A vantagem é que até hoje, no desempenho destas funções, tal escolha ainda não se colocou. Mas que ninguém duvide: antes obedecer a Deus do que aos homens. - Direito Natural – A fé deve influenciar leis concretas — por exemplo em matérias de vida, família ou educação — ou isso é uma linha que não deve ser cruzada?
JC – A defesa do valor da Vida Humana; a defesa da Família, como célula base da sociedade e verdadeira escola de virtudes e a liberdade de educação, são valores humanos cruciais. Estão assentes no Direito Natural. São valores anteriores ao Estado e não apenas princípios de Fé,
motivo pelo qual os poderes políticos, aquilo que devem fazer, é simples: protegê-los e garanti-los. - Esperança – Se Cristo entrasse hoje na Assembleia da República, sentir-se-ia confortável com o ambiente político… e com as decisões que por lá se tomam?
JC – Jesus Cristo, há mais de dois mil anos, mostrou princípios e um caminho de Paz e de Justiça aos homens do seu tempo, incluindo aos servidores públicos e aos políticos. Hoje teria de os repetir. Afinal, a mensagem evangélica do Cristianismo é uma mensagem para todos os
homens e para todos os tempos. É uma mensagem que está sempre atual e à espera de ser total. Que cada um, à sua maneira, faça os possíveis. Que Deus, nas suas infinita bondade e misericórdia, faça os impossíveis. E acreditemos que Deus estará sempre connosco, até ao fim dos tempos.

Notas biográficas – José de Carvalho
José de Carvalho, nasceu a 17 de fevereiro de 1979, em Fornos, Marco de Canavezes. É Professor e Investigador de História. Atualmente, é deputado na Assembleia da República. Autor de obras nas áreas da História e da Religião, destacam-se Santo António: Um Santo Popular (2020), Bento XVI em Portugal (2021) e Nossa Senhora na História de Portugal (2026).
No Parlamento, é membro da Comissão de Educação e Ciência. Reconhecido pela frontalidade, respeito e dedicação, defende valores como a Vida, Família, Tradição, Propriedade, Identidade e Memória.
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