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O santuário que nasceu da fé popular e transformou Ermesinde

O santuário que nasceu da fé popular e transformou Ermesinde – Na Diocese do Porto, poucas devoções populares alcançaram a dimensão espiritual, cultural e humana da devoção a Santuário de Santa Rita.

Na Diocese do Porto, poucas devoções populares alcançaram a dimensão espiritual, cultural e humana do Santuário de Santa Rita — um lugar onde a fé do povo não só ergueu um templo, como moldou a identidade de toda a cidade.

Conhecida como a “Santa dos Impossíveis”, Santa Rita de Cássia continua a atrair milhares de peregrinos vindos de toda a região Norte, particularmente do Grande Porto, de Trás-os-Montes e do Minho, numa manifestação de fé profundamente enraizada no povo.

A devoção a Santa Rita encontrou em Ermesinde um dos seus mais importantes centros de peregrinação em Portugal. O atual santuário, situado na antiga Quinta da Formiga, remonta ao século XVIII.

A construção da igreja e do convento iniciou-se em 1749, ligada aos Eremitas Descalços de Santo Agostinho, ordem particularmente dedicada à espiritualidade agostiniana e ao culto de Santa Rita.

O coração barroco da devoção no Norte

O conjunto arquitetónico barroco, de influência joanina, permanece como um dos mais belos exemplares religiosos da região. A fachada imponente, ladeada por duas torres, revela a marca do barroco português e testemunha a importância espiritual que aquele espaço rapidamente adquiriu junto das populações locais.

Após a extinção das ordens religiosas em 1834, o convento conheceu tempos difíceis. Contudo, a devoção popular nunca desapareceu. O povo continuou a procurar Santa Rita, especialmente em momentos de sofrimento familiar, doença, desemprego, crises conjugais ou situações consideradas “impossíveis”.

A recuperação pastoral do espaço no século XX devolveu-lhe vitalidade e transformou-o num dos maiores centros de peregrinação da Diocese do Porto. Em 1956, o então bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, reconhecendo a crescente afluência de fiéis, elevou o templo a Santuário Diocesano.

As rosas, as promessas e os peregrinos

A festa anual de Santa Rita, celebrada a 22 de maio e prolongada nas festividades do mês, constitui um dos momentos altos da religiosidade popular portuense. Milhares de pessoas deslocam-se ao santuário para cumprir promessas, participar na Eucaristia, beijar a relíquia da santa e acender velas diante da sua imagem.

A tradicional bênção das rosas — símbolo associado ao milagre ocorrido pouco antes da morte de Santa Rita — permanece uma das práticas mais emblemáticas destas celebrações. Muitas famílias levam rosas para casa como sinal de proteção, esperança e intercessão.

Outro elemento profundamente característico desta devoção é a peregrinação a pé. Ainda hoje, sobretudo aos domingos de manhã e nos dias festivos, é frequente ver grupos de peregrinos caminhando quilómetros até Ermesinde. Para muitos, trata-se de um gesto penitencial e de gratidão.

Uma santa próxima das famílias

A devoção a Santa Rita na Diocese do Porto possui também um forte traço familiar e feminino. Muitas mulheres identificam-se com a vida da santa italiana: esposa, mãe, viúva e religiosa agostiniana. A sua história de sofrimento, paciência e reconciliação continua a inspirar pessoas que enfrentam dramas familiares, violência doméstica, dificuldades económicas ou doenças prolongadas.

Nos últimos anos, o santuário reforçou ainda mais a sua dimensão pastoral e espiritual, acolhendo relíquias, promovendo celebrações especiais e investindo no acolhimento de peregrinos. Entre os sinais desta vitalidade destaca-se também a veneração de São João Paulo II, cuja relíquia biológica foi entronizada no local.

Um lugar de esperança para o nosso tempo

Mais do que um monumento histórico, o Santuário de Santa Rita em Ermesinde permanece hoje um lugar vivo de oração, lágrimas, esperança e fé. Num tempo marcado pela incerteza e pela fragilidade humana, continua a ecoar entre os peregrinos a antiga confiança popular: “Santa Rita, advogada dos impossíveis, rogai por nós.”

Por Sérgio Carvalho – Professor e Jornalista

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