back to top
Domingo, Fevereiro 8, 2026

Novidades

Notícias Relacionadas

A Capela da Senhora da Saúde no Porto

A Capela da Senhora da Saúde no Porto também conhecida por capela do Padrão na rua do Heroismo como local de devoção popular referida na literatura de Júlio Dinis.

Interior da Capela da Senhora da Saúde no Porto
Interior da Capela da Senhora da Saúde no Porto

A Capela da Senhora da Saúde, vulgarmente chamada Capela do Padrão, ergue-se na Rua do Heroísmo, no cruzamento com a Rua da Formiga.

A designação “Padrão” vem do antigo cruzeiro seiscentista da aldeia da Formiga, que em 1869 foi transferido para o interior da capela, perpetuando a memória do lugar. Na fachada lê-se o ano de 1810, associado a obras de reconstrução, embora seja provável que o templo tivesse raízes mais antigas.¹

Desde então, a pequena capela tornou-se o centro espiritual de vários arrabaldes portuenses: Formiga, Nova Sintra, Lomba, Campanhã, Rego Lameiro, Freixo, Noeda, Agra, China e Presa Velha.

Estas comunidades, feitas de trabalhadores humildes, lavradores e burgueses encontravam ali um espaço de oração que as unia em festas, ladainhas e promessas.

Um documento de 1820 já referia que o templo era demasiado pequeno, pois “a maioria do povo ficava fora dele”, sinal inequívoco da afluência de fiéis.²

Não surpreende, por isso, que a literatura tenha captado a importância deste lugar. Júlio Dinis, na sua obra Uma Família Inglesa (1867–1868), situa um episódio marcante junto à capelinha do Padrão.

O personagem Manoel Quentino, consumido pela doença e pelo cansaço, detém-se diante da capela, onde faz uma breve oração que lhe restitui ânimo.

Prossegue depois até ao cemitério do Repouso, onde acaba por cair prostrado.³ O passo é breve, mas significativo: a capela surge como símbolo de refúgio espiritual, lugar em que o crente humilde encontra forças na fé antes de enfrentar a sua própria fragilidade.

A Família Inglesa inspiradora da história vivia realmente no atual edifício e Quinta das Águas do Porto, onde a minha bisavó trabalhou.

A Capela da Senhora da Saúde no Porto
A Capela da Senhora da Saúde no Porto

Devoção na Capela da Senhora da Saúde no Porto

Esta cena literária confirma a verdade vivida por gerações de portuenses. Nos tempos de epidemias, como o surto de cólera no século XIX ou a peste bubónica de 1899, a devoção a Nossa Senhora da Saúde intensificou-se.

A própria designação do templo exprime uma confiança simples: pedir saúde, proteção contra os males e consolação na doença.

Contava a minha bisavó Palmira de Jesus Oliveira que a sua mãe dizia que nesses tempos se hasteava na capela uma bandeira negra avisando que havia doença e peste nas imediações. O povo recorria em orações a São Sebastião que atualmente está na entrada da capela.

Memória coletiva das gentes do Porto na Capela da Senhora da Saúde
Memória coletiva expressa nos azulejos da capela do Padrão

Um espaço de memória colectiva

Mais do que uma edificação, a Capela da Senhora da Saúde é um espaço de memória coletiva. A fé das gentes da Formiga, de Nova Sintra, da Lomba, de Campanhã, do Freixo, de Noeda, da Agra, do Rego Lameiro, da China e da Presa Velha permanece gravada nas suas paredes revestidas de azulejo, nos sinos que ainda hoje se ouvem e nos festejos anuais promovidos pela confraria local.

Ao evocar este lugar em Uma Família Inglesa, Júlio Dinis deu-lhe também um lugar na literatura, eternizando a experiência de tantos anónimos que ali viveram a sua fé.

A sua história não se mede apenas pelas pedras ou pelas imagens, mas sobretudo pela fé transmitida de geração em geração. Foi ali que se acenderam velas em silêncio, que se rezaram terços nas tardes de domingo, que se agradeceram curas inesperadas ou se confiaram dores escondidas.

A devoção a Nossa Senhora da Saúde brotou, como tantas vezes no Porto, da experiência da fragilidade humana. Perante doenças, epidemias e perigos, o povo encontrou na pequena capela um refúgio de confiança e esperança.

O nome da Senhora recordava a cada fiel que a fé não era apenas promessa de eternidade, mas também força para enfrentar o quotidiano, consolo nas casas humildes e estímulo de solidariedade entre vizinhos.

Nesta capela cresci na fé cristã, fiz a catequese, a primeira comunhão, fui catequista, acólito e seminarista, membro da confraria.

Por Sérgio Carvalho

Notas referidas neste artigo:

1. Fachada da capela ostenta a inscrição “1810”, interpretada como data de reconstrução; cf. “A Capela de Nossa Senhora da Saúde e a zona da Formiga”, Etc. e Tal Jornal, setembro 2022.

2. Documento de 1820 refere a exiguidade do templo; idem.

3. Júlio Dinis, Uma Família Inglesa, cap. XX–XXI: “Tinha chegado à capelinha do Padrão” (edição digital, Project Gutenberg).

»»»

Os cruzeiros na cidade do Porto: a Reconquista Cristã – Portugallook

Santo António venerado nas igrejas do Porto – Portugallook

Nossa Senhora da Silva nos Caldeireiros no Porto – Portugallook

Atigos Populares