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A casa de Miguel Torga e do vizinho padre Avelino

A casa de Miguel Torga e do vizinho padre Avelino – em São Martinho de Anta, estas duas casas construiram uma amizade para a vida dado que juntaram dois vizinhos que caldearam os dias e os anos em conversas hoje expressas na obra do autor.

A casa branca onde nasceu Miguel Torga confina com a do padre Avelino em São Martinho de Anta, município de Sabrosa

Romance de Miguel Torga

Ora pois: foi tal qual como vos digo.

Minha mãe, certo dia, pôs a questão assim:

  • ou Ela, ou eu!

E ficou resolvido que no dia doze

minha mãe parisse,

e pariu!

*

Pariu e ninguém se opôs! Ninguém!

Como se fosse um feito glorioso

parir assim alguém, tão nu, tão desgraçado!

Por mim,

ainda disse que não!

Mas o seu Anjo da Guarda

era forte e tenebroso…

E aquele frágil cordão

deixou de ser o meu Pão,

o meu Vinho

e a paz eterna do meu coração

mesquinho!

*

Deixou de ser o silêncio

delicado e agradecido

dos meus instintos menores

Deixou se ser o Norte daquele lago

onde boiava o meu corpo

sem alegria e sem dores

Deixou se ser aquela verdadeira

e sagrada ignorância do meu nome

que Satanaz me disse, quando disse:

  • Respira e come, respira e come, Animal!

(A voz de Satanás já nesse tempo

era humana e natural…)

*

Deixou de ser o mundo e foi um outro!

Foi a inocência perdida

e a minha voz acordada…

Foi a fome, a peste e a guerra!

Foi a terra

sem mais nada!

in O Outro Livro de Job de Miguel Torga

Busto de Miguel Torga ao lado da raiz do negrilho que imortalizou na sua escrita

Miguel Torga e o amigo Padre Avelino

Miguel Torga, pseudónimo de Adolfo Correia da Rocha, nasceu em São Martinho de Anta e tornou-se um dos grandes escritores portugueses do século XX. A sua obra reflete a ligação profunda à terra e à cultura transmontana, destacando-se livros como Contos da Montanha, Bichos e A Criação do Mundo.

O Padre Avelino Silva, vizinho e companheiro de caça de Torga, recordava-o como um homem solitário, íntegro e duro, lamentando que nunca tenha recebido o Prémio Nobel da Literatura. Apesar de viver em Coimbra, Torga visitava frequentemente a sua terra natal, onde nem sempre foi bem compreendido pelos habitante.

Miguel Torga e o Padre Avelino Silva tinham uma relação de respeito e amizade, apesar das diferenças de pensamento. O padre Avelino, vizinho e companheiro de caça do escritor em São Martinho de Anta, recordava-o como um homem solitário, íntegro e duro, lamentando que nunca tenha recebido o Prémio Nobel da Literatura.

Apesar de Torga ter uma relação difícil com a religião e com Deus, o padre Avelino era um dos seus amigos mais próximos. Em conversas sobre fé, Torga chegou a dizer ao padre: “O senhor é um cristão profissional, eu sou um cristão livre”, refletindo a sua postura independente. Durante uma caçada, Torga deixou escapar uma perdiz porque estava concentrado em terminar um poema que há anos procurava concluir.

O padre Avelino reconhecia que Torga era um crente que não soube conviver bem com o silêncio de Deus, o que se refletia na sua obra e na sua vida.

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